Pedir ao coração que se deixe levar desta vez
Sentir a luz e nenhuma voz, respirar sem timidez
Ouvir o fundo e entender essa lentura – com sensatez
Aceitar a força dessa brandura na sua nudez
Deixar o todo se deleitar em tão grande placidez
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Ser ou escolher
A escolha só é o reflexo duma incoerência na intimidade do nosso ser. Quem não escolhe, é.
Consumir-se
Fracos defensores de ti, pobre
Sem razão, que nasceste pra morrer.
São esquizofrénicos e estão tristes!…
Dor a deles, coitados sem senso,
Quando, incapazes de se proteger,
Erguem a negação como nobre
Idéia da construção de um ser;
Pois sabem eles que não desistes
De existir toda a vida, indefenso…
Padecer, assim deixá-los viver.
Uma apologia como outra qualquer
Penso poder defender que sejam factos; nada ser eterno, nada ser absolutamente verdade ou ainda, nada ser perfeito.
Aceito que nada seja maior que tudo; se me esforçar considerávelmente é possível que acabe por admitir que nada seja impossível……
Enfim, restar-me-á procurar saber se será válido afirmar que nada possa ser mais aflitivo do que a ausência do pensar!
Tu, para sempre
Não há fatos eternos,
Como não há sapatos
Nem roupa interior,
Ou vestido sequer –
De que tecido for.
Por mais branca seja,
Engraxados a rigor…
Não há fatos eternos,
Não há não senhor!
Sem distinção de sexo ou género
Desde os primeiros instantes de consciência, Ele sentiu uma coisa sem forma, apagada, cálida, muito húmida…
O seu espírito (tudo) revolvia em água no escuro. Então Ele pensou contrariado: « Se ao menos houvesse luz… » E ela apareceu. E Ele, apesar de surpreendido e acanhado, conseguiu irromper, e secou-se. Continue la lecture
Fiama Vitália
Como deixar de fumar II
Fiama Vitália nunca fumava antes de saír de casa.
Sentada ao volante, avermelhava o filtro com o baton enquanto ia ordenando algumas ideias… Continue la lecture
Baldemar Acúrsio
Como deixar de fumar I
Se Baldemar Acúrsio deixou* de fumar, porque não deixaria qualquer outro? *Admitamos que os factos não são relevantes. Eles não modificam em nada o propósito da minha exposição.
Kulefuka – Capítulo I
Kulefuka e a primeira chuva do ano de 1955
Colónia
Algumas árvores frondosas de tronco fino, tornavam-se – no tempo das chuvas – floridas, vaidosas como raínhas. Outras, pelo contrário despidas, muito altas e encorpadas, podiam viver eternamente em harmonia ou sómente até ao dia da sua profanação.
Era uma região que retribuía generosamente os mais simples gestos com as dádivas do gado, com o óleo de palma, a mandioca, o milho, o feijão. Oferecia frutos carnudos, sumarentos com sabor a mel.
A pesca, a caça e alguns rituais, constituiam os últimos prazeres úteis autorizados aos seus nativos, permitindo-lhes durar, ritmados pelo clima e pela ventura… Continue la lecture
Kulefuka – Capítulo (IX)
Kulefuka depois da chuva
Land Rover Série II
Geralmente no fim da semana, a minha mãe levava ao forno as carnes que tinha escolhido préviamente, temperado, demolhado, cozido em grandes panelas antes de as revestir com a massa levedada.
Cada fatia era um regalo, sobretudo aquelas saboreadas em família no domingo, por exemplo depois do jogo. A minha mãe até consentia que o meu pai me deixasse beber um golo da sua Cuca fresquinha…
Mas haviam algumas sextas-feiras de determinadas alturas do ano, em que uma parte da dita iguaria, mal acabada de arrefecer, era embrulhada num pano branco, e desaparecia sem que ninguém me dissesse porquê; sendo igualmente muito misterioso o facto do meu pai não poder ser encontrado no dia seguinte – não fosse pela mesma razão. Continue la lecture