Kulefuka – Capítulo (IX)

 

 

Kulefuka depois da chuva

Land Rover Série II

Geralmente no fim da semana, a minha mãe levava ao forno as carnes que tinha escolhido préviamente, temperado, demolhado, cozido em grandes panelas antes de as revestir com a massa levedada.
Cada fatia era um regalo, sobretudo aquelas saboreadas em família no domingo, por exemplo depois do jogo. A minha mãe até consentia que o meu pai me deixasse beber um golo da sua Cuca fresquinha…
Mas haviam algumas sextas-feiras de determinadas alturas do ano, em que uma parte da dita iguaria, mal acabada de arrefecer, era embrulhada num pano branco, e desaparecia sem que ninguém me dissesse porquê; sendo igualmente muito misterioso o facto do meu pai não poder ser encontrado no dia seguinte – não fosse pela mesma razão.
Quando assim acontecia eu também me deliciava, por exemplo depois da sessão de cinema da tarde de domingo, mas sem o golinho de cerveja. O meu pai só chegava mais tarde com ar cansado, com a barba por fazer, com as botas muito sujas de lama, com a camisa transpirada e vermelha de pó fino, com o pano menos branco bem dobrado na mão e com um ar muito feliz… Muito mais feliz do que quando o Sporting ganhava ao Benfica.
Quando assim acontecia, no fundo nada me faltava que não fosse devolvido em porção majorada antes mesmo da nova semana começar; mas eu estava convencido que também devia conhecer a razão profunda dessa felicidade do meu pai – não sómente o nome curto que me parecia associado às suas escapadas.

Num desses dias em que o pano branco, fora da sua gaveta, estendido sobre a mesa, esperava o desenformar da bôla, decidi agir maduramente. Demorei pouco tempo no banho, comi a sopa ao jantar sem protestar e fui-me deitar na altura devida, bastou terem olhado para mim.
Fiquei na cama virado para o estuque em silêncio, a tentar perceber os movimentos subtis de cada um e a tentar construir as perguntas « às » respostas da única voz que me era possível entender, por ser grave: Sim… Não… Cinco ou seis…. Mais um pouco…
Acabei por adormecer, mas não completamente. Passados alguns minutos, os movimentos que percebia eram diria eu, inversamente mais ansiosos da parte dum deles e um pouco lentos da parte do outro. Nenhum falava.
Saltei da cama tal como, aos vinte anos o passei a fazer na caserna do RI13 e depois na Cruz Verde. Vesti-me para logo estar em frente a ele, que segurava esse embrulho de tecido. Também ele ficou pálido, imóvel. A minha mãe que o olhava sem me poder ver, deve ter acabado de acordar nesse instante. Vi-a então passar por mim. Decidida abriu, e depois fechou a gaveta da cómoda do meu quarto, voltou a passar em direcção a ele e pousou com firmeza, cuecas, meias, uns calções meus, uma t-shirt, um boné e um sorriso impositor sobre a bôla de carne.
Ele não pôde fazer doutra maneira, mas acho que também ficou contente; Como se o Sporting fosse ainda o lampião apesar do empate. Olhou-me para que o seguisse e eu fi-lo.
Senti o cacimbo da madrugada ao saír da cozinha, descemos as escadas e passamos pelo Volkswagen preto de 1953 que estava sózinho na rampa. Abriu o portão de ferro em silêncio para não acordar quem não quizesse e eu continuei a segui-lo até ao grande cinzento, um Land Rover Série II, 88 ou 109 não vos sei dizer, ao qual, aliàs, todos chamava-mos Jeep.
A minha mãe alcançou-nos com uma garrafa de leite achocolatado na mão e outro pacote que ele acondicionou entre as roupas, no saco que colocou contra as duas caixas em madeira, também cinzentas, ao lado de uma mala alongada protegida por um forro de ganga e ainda outra maleta muito pesada.
Apesar da pouca luz, uma série de pequenas superfícies circulares em latão, reluziam alinhadas, e uma peça de vestir, escura e esquisita, com ganchos, completava com suas botas, as (nossas) bagagens.

No interior, com as pernas ainda mais frias pelo contacto com a napa do assento e sem querer tremer, com as duas mãos apoiadas no bordo do porta luvas muito simples no qual tinha colocado o meu boné, fixava aquela peça saliente no parabrisas, ao mesmo tempo que anticipava cada gesto do meu pai. Conhecia as reacções desta mecânica Inglesa e doutras, por tê-los visto fazer um e outro tantas vezes, por ter feito eu próprio, só nos ligeiros visto que cada dispositivo do « Jeep » exigia capacidades fisicas que eu ainda não possuía e cuja ergonomia era ainda mais desprocorcionada:
Meteu a chave na ingnição em posição apropriada e carregou no pedal de embraiagem, mais largo e pesado que um pé de adulto; depois o click metálico da alavanca, o mesmo que se ouvia entre dois esforços da transmissão; em seguida procedeu ao pré-aquecimento da câmera esperando que a luz mudasse de cor para finalmente dar os dois primeiros safanões ao motor ainda em défice de compressão e logo que a temperatura pudesse produzir combustão, dar origem a uma nuvem de fumo preto com o pedal direito, e ao forte odor habitual (sem importância); Mas sobretudo dar origem às vibrações das mais embriagantes que pode sentir uma criança de 5 anos ao lado do seu pai. Cada ponta dos meus lábios colou-se instantaneamente à respectiva orelha, mas ele não viu, porque ainda estava escuro; assim pude desfrutar plenamente desse momento.
Depois de três passagens de caixa coordenadas com o chiar de uma mola envelhecida mas sempre resistente, atravessámos o centro da cidade enquanto os candeeiros da rua nos acenavam.
Já com os 2000 cc do motor a queimarem diesel em permanência e todos os atritos da mecânica a produzirem bem estar, só a lua e os solavancos que eu não podia prever… de vez em quando um cimo de arvore apressado… Ah, sim… e os aromas matinais que agora não vou descrever.
Esperei ansioso que o céu começasse a clarear para mover a lingueta perfurada que accionava o aparelho do « Jeep » que mais me era querido: A escotilha frontal rectangular que, quando nem todas as frinchas nem todas as janelas abertas podiam oferecer o conforto esperado, permitia aos adultos refrescar o tronco mas que constituia principalmente, uma abertura virada para a o desfilar do mundo, à altura dos olhos do pequeno explorador que eu era.
(…)

 

 

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