Kulefuka – Capítulo I

 

Kulefuka e a primeira chuva do ano de 1955

Colónia

Algumas árvores frondosas de tronco fino, tornavam-se – no tempo das chuvas – floridas, vaidosas como raínhas. Outras, pelo contrário despidas, muito altas e encorpadas, podiam viver eternamente em harmonia ou sómente até ao dia da sua profanação.
Era uma região que retribuía generosamente os mais simples gestos com as dádivas do gado, com o óleo de palma, a mandioca, o milho, o feijão. Oferecia frutos carnudos, sumarentos com sabor a mel.
A pesca, a caça e alguns rituais, constituiam os últimos prazeres úteis autorizados aos seus nativos, permitindo-lhes durar, ritmados pelo clima e pela ventura…

Quase a norte do único telhado de zinco projectado sobre uma forma rigorosamente quadrangular defendida por uma sobrelevação, e só francamente aberta ao mundo pela varanda frontal mais branca e ostentadora que os seus muros de suporte, encontrava-se o terminal.
Durante o cacimbo os frutos pequenos eram aí – depois de separados e expostos ao sol, sem descanso virados, desnudados, estendidos outra vez mas sempre remechidos – ensacados, marcados, com toda a força exigível carregados em vagões atrelados uns aos outros.

Na direcção oposta, as colinas desciam suaves em tons vivos até ao eixo mais horizontal, que aceitava outras preciosidades desnecessárias e as levava puras ao mar para que este as pudesse pôr definitivamente a salvo de qualquer tentação.

De lá – aonde se tomavam de assinatura decretos rígidos – surgiam agora mais numerosas, as camisas de estilo clerical incumbidas de se adaptarem melhor às circunstâncias do que as tradicionais batinas; de lá se destacavam os confortáveis capacetes de formato ovóide com abas de sombreamento, empunhando os mais diversos utensílios, alguns dos quais eruditos; de lá vinha gente esperançosa muito ambiciosa.

Utilidades e futilidades chegavam assim de todo o mundo a alguns pontos dessa moderna via férrea, com a finalidade de retornarem valor em função das suas capacidades de serem negociadas por alguns dos seus habitantes, obrigatoriamente mais sociáveis e económicamente mais desenvolvidos do que os indígenas, fossem eles nativos, ou seus descendentes despojados dos benefícios do « maternalismo » mas também sem a instrução nem os hábitos individuais e sociais pressupostos para poderem beneficiar da aplicação integral dos direito(s) inerente(s) ao « paternalismo » público e privado.

Como aqueles que ali não tinham nascido nem nunca ali tinham vivido nem ali pretendiam morrer mostravam interesse por aquilo que dali lhes chegava, o consenso na civilização existia em relação às necessidades de todos os que ali fossem considerados.

Um camião robusto ainda que antigo, de rodado duplo e equipado com um motor potente e sobretudo tão fiável quanto possível, era necessário aos mais ambiciosos desses civilizados para decidirem desafiar as hostilidades das estreitas desniveladas e por vezes inconsistentes picadas – instigadas pelas vontades estravagantes do clima – com o fim de entregarem antes do comboio ou aonde este não chegava, aquilo que era indispensável aos seus homólogos ditos cidadãos, e supérfluo aos outros.

Por isso, era normal que nas proximidades de cada varanda caiada aonde a bandeira se hasteava, existisse sempre uma segunda forma habitada, igualmente branca, a que se chamava kitánda por conveniência e que pela mesma razão tinha a função de propôr o peixe já seco, a farinha do milho, o açucar sem cana e o fruto desfeito, o tecido, a cor, o alcool a pronto, e até o suor do comprador em sacos de pano branco.
Na nossa história, essa loja existia em frente ao largo próximo da passagem de nível sem guarda, aonde o chão perdia a sua obliquidade; um espaço aonde tudo o que merecia importância acabava por acontecer.

Nas proximidades, uma terceira forma, uma quarta e uma quinta, essa muito maior, comparavam semelhanças entre si mas tentavam não revelar algumas das diferenças. As outras mais distantes, pequenas, de planta mais simples arredondada, verdadeiramente térreas formavam a sanzala (de nome próprio).

Destas últimas, eram agora já quase sem violência manifesta, arrancados os corpos necessários à plantação e à colheita dos frutos, tornados supéfluos à terra pelos efeitos perversores dum pensamento (fosse ele puro na sua interioridade) adoptado como regra de procedimento numa hierarquia – a noção de oportunidade.
Não por convicção, não por costume cultural, não por necessidade ou vontade própria, chegavam ali em fila, envelopando o espírito que forçavam discreto, empurrados pela presença duma Mauser à bandoleira, esses corpos tornados manejáveis. Eram depois armazenados em grupos por trás de portas alinhadas, casavam esta outra forma, e
 ali estavam. Respondiam à chamada para ir largar suor e receber depois, só o que podiam deixar na Kitánda quadrada caiada. E tinham a ilusão de partir quando o castigo os libertava por algum tempo.

Voltavam sempre, sem vontade própria nem oportunidade de fazer duma outra maneira.

 

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