Baldemar Acúrsio

Como deixar de fumar I

Se Baldemar Acúrsio deixou* de fumar, porque não deixaria qualquer outro? *Admitamos que os factos não são relevantes. Eles não modificam em nada o propósito da minha exposição.

Antes de adormecer, Baldemar Acúrsio deixava arder viradas para cima na mesinha de cabeceira, duas ou três pontas de cigarro ao lado do falso Rolex, da carteira símile couro preto condizente com o dos sapatos, nem sempre brilhantes – cheia em demasia de bilhetes furados entre o Cais do Sodré e a Trafaria, do passe caducado, dos preservativos e das moedas de diâmetro reduzido, do pacote com as cinzas, do maço cheio sob o isqueiro em ferro dourado – e do rádio moderno que se calava por si, e voltava a ouvir-se no dia seguinte predizendo a passagem do 15, que na altura era de cor laranja.
Antes de se levantar, Baldemar Acúrsio acordava e acendia o primeiro do dia, cuja pirisca pousava ao pé daquelas já frias, para se ir barbear. A sua irmã tinha-lhe interdito o cinzeiro esperando assim que ele não enfumarasse o quarto, em vão.
Depois de perfumado, Baldemar Acúrsio incendiava outro na cozinha com um café muito quente e em seguida, incitado pela voz lúbrica da locutora da Renascença passava porta fora.
Enquanto o Xico da Carris não chegava, Baldemar Acúrsio tirava – devagar – mais um do bolso da camisa leve, aberta, olhando disfarçadamente para a saia tão bem moldada de Jitendra, a gentil vizinha que preferia esperar sentada, lendo distraída.
Durante a viagem, Baldemar Acúrsio agarrava com força o varão vertical perto do condutor (seu amigo) e ouvia deste, as novidades vantajosas ().
Xico Xavier deixava-o saír entre duas paragens, no ponto mais próximo do seu destino, e Acúrsio, caminhando, queimava apressadamente aquele que acabaria por lançar ao rio, antes de chegar ao barco.
Já na Caparica, Baldemar Acúrsio Prestes Murtinho tomava de pé a primeira bica e uma ginginha e largava – às sete horas – no cinzeiro em vidro de aspecto lavado, o cigarro inacabado, para ir atender o primeiro cliente do Café Radical. E os outros seguiam entre os clicks da tampa do seu isqueiro, ao ritmo dos « bom dia » e « adeus, obrigado » do caderno de encargos.
Às onze e meia, Acúrsio sentava-se para almoçar, e fumar um descançado. Depois continuava a sujar os pulmões e o enorme cinzeiro de vidro, enquanto servia a esplanada até às seis.
(…)
Baldemar morreu no dia 8 de agosto de 1970 às seis horas e doze minutos da tarde, depois de ser atropelado em frente ao Café Radical, quando se preparava para acender o primeiro cigarro do dia; Perdeu-se durante uns segundos na ideia de o deixar para quando descesse do cacilheiro, em Lisboa.

Baldemar tinha as mãos grandes, não gostava de animais de estimação e esta história não se importa nada com ele.

 

 

Laisser un commentaire

Votre adresse e-mail ne sera pas publiée. Les champs obligatoires sont indiqués avec *