Como deixar de fumar II
Fiama Vitália nunca fumava antes de saír de casa.
Sentada ao volante, avermelhava o filtro com o baton enquanto ia ordenando algumas ideias…
Nessa manhã guardou o isqueiro prata sem acender o cigarro; lançou-o para o jardim e, mostrando ter decididamente perdido a lembrança dos interditos das regras societais de conduta, levantou os vidros, accionou o V6 e pesou progressivamente sobre o pedal até o encostar ao batente, obrigando o ponteiro das rotações a comportar-se como um tonto.
Fremindo e com a leveza dum colibri, atravessou a pequena ponte. Sempre a tirar o melhor partido da 9G-Tronic, Vitália foi desenhando intuitivamente no asfalto, parábolas cúbicas, lemniscatas de Bernouille, clotóides perfeitas – lá aonde o engenheiro se tinha contentado de aplicar de maneira repetida, uma única formula simples.
(…)
Ainda o sol não bocejava quando ela pisou o paralelo orvalhado da cidade velha, com a arrogância que só pode provir de gente de uma certa condição. Depois retomou a sobriedade que lhe era reconhecida, para penetrar na propriedade e imobilizar com a elegância habitual o SLC 43 cérusite magno designo, sob o imponente pórtico de estilo dórico. Trocou os mocassins pelos talões brancos, alcançou o saco de couro pousado sobre o interior castanho noz – exclusivo – do descapotável, e abandonou-o, insinuando com os olhos um sorriso que como sempre fez corar o rapazinho.
A porta alta abriu-se sem que ela a tocasse, e as primeiras informações chegaram-lhe em torrente como era costume, mas ela não as quiz tratar nesse instante. Fá-lo-ia depois.
Já no amplo espaço individual fechado, sentou-se protegida da luz pelo cortinado alvo espesso, pousou a cor dos lábios no filtro e começou a encadear os pensamentos da forma mais lógica que tempo lhe permitia agora fazer.
Passou a ser este, durante um período que não posso definir, o primeiro cigarro do dia de Fiama Vitália Alpuim Eiró.
Não sei portanto dizer-vos se um dia Fiama deixou de fumar esse primeiro cigarro e definitivamente, não seria de bom-tom contar como é que o rapazinho deixou de corar.