Desde os primeiros instantes de consciência, Ele sentiu uma coisa sem forma, apagada, cálida, muito húmida…
O seu espírito (tudo) revolvia em água no escuro. Então Ele pensou contrariado: « Se ao menos houvesse luz… » E ela apareceu. E Ele, apesar de surpreendido e acanhado, conseguiu irromper, e secou-se.
Viu que a luz era boa; e olhou para a escuridão espreitando pela baínha, e chamou-lhe tristesa, ignorância, morte; sossego. E chorou. E chamou à luz, vida, existência, consciência… sofrimento.
Em seguida elevou-se, através dum conjunto de acções e técnicas elaboradas e achou que o que existia para além da terra e da água e do fogo, era bom. E chamou-lhe céu; lugar simplesmente delicioso, sítio muito aprazível… Paraíso.
Tendo o espaço e o tempo sido organizados, imaginou o que não existia. E nada apareceu.
Então meteu-se a calcular e a desenhar. Fabricou produtos industriais de qualidade, e concebeu também os seres que seriam autorizados a desfrutá-los; E por conseguinte criou o dinheiro.
Por fim pôs-se a cismar… (alguém podia cobiçar a sua obra). Logo os pobres apareceram numerosos.
Apressou-se e improvisou a produção necessária à mantença destes últimos supondo Ele que certos males podiam ter vindo por bem.
E tantos outros males supostamente benevolentes ou correctivos vieram em vez do bem, e Ele orgulhoso, afiançou-os.
(…)
Moral da história. Tudo que é bom, é obra Dele, o resto sendo fruto de vários desvaneios seus, tem pouco valor. Por exemplo, ainda hoje Ele não se lembra de ter criado o amor; por isso, o que existe, unicamente por mérito do Homem, é tão imperfeito e é tão efémero.