O Amilcar

Dessa vez o Amilcar não tinha vindo na sexta-feira. Tinha ficado a preparar um exame e só me telefonou no domingo à noite a convidar-me para vermos um « Manoel de Oliveira » no Cinema do Domingos. Não o soube contrariar e mais tarde esperei-o em frente ao seu portão, sentado ao volante, no espaço de dois cigarros.

Mal ele entrou, ao mesmo tempo que eu punha em movimento o carro, antigo duma geração, apressei-me em tentar apresentar-lhe uma noite mais em acordo com a minha curiosidade do momento; expliquei-lhe que queria absolutamente conhecer a sala de Bingo. Mas essa idéia fazia aparecer nele uma espécie desdém, bem diluido pela sua capacidade de entender a minha pessoa. Como sempre faziamos, expusémos os nossos argumentos contrários da única maneira que conheciamos; aquela que nos permitia sermos amigos. Já tinha acontecido eu ter ficado sentado na poltrona e ele ter deixado o local de projecção por nos opormos na apreciação dum Hollywood movie, mas era muito mais frequente chegarmos a consenso como aconteceu nessa noite quando ainda faltavam quarenta minutos para o filme começar. Iamos de facto poder fazer as duas coisas se começassemos pelo salão de jogos.

Na grande sala acabada de inaugurar, um ou mesmo vários aparelhos modernos faziam os possíveis por renovar o ar já tão viciado que aumentava sobre cada cadeira castanha condizente com a pobre decoração. Depois de nos termos sentado também, e de eu ter comprado à menina o meu bilhete para a série seguinte que tinha como padrão o preenchimento completo, esperamos impacientemente o desenrolar de cada episódio da partida corrente. (linha-confere-anula-segue-linha-confere-confirma-paga-segue…)
Finalmente o anunciador pôs em jogo a nossa série. Ao primeiríssimo cantado, uma pequena sensação de felicidade nasceu em mim e o calor nervoso não sessou de aumentar, impulsionado por cada número e tão lentamente durante o « mexer do saco ». O Amilcar olhava discretamente para o cartão colorido com os seus já imensos olhos e alargava também o sorriso devagarinho, para ninguém notar. Por duas vezes, já perto do êxtase um número não correspondeu, o que só proporcionou o pulsar do prazer ainda mais marcado em cada um de nós. Por último não foi possível reprimir o número ganhador; Biinggoooo! Larguei sem complexos; e olhei para todos com ar dominador, sem me interrogar sobre o mérito, sómente gozando da plena superioridade.
Ao ver-me em tal estado de veras inabitual o Amilcar não conteve um primeiro acesso do riso franco que era, bem me lembro, usual nele.
A menina conferiru, recebemos a soma (exorbitante) e saímos, mas não para cumprirmos o plano traçado com tanto empenho ainda há pouco tempo….

…Porque a necessidade do desenvolvimento das nossas prezadas faculdades, a importância da nossa formação enquanto ser social, o ávido desejo do desfrutar da sublime expressão de um ideal estético… até mesmo os jovens elegantes e perfumados conjuntos femininos, agradávelmente sorridentes que poderiamos ter a sorte de cruzar durante o curto café do intervalo do cinema, tudo deixou de ter uma importância imediata em comparação com o arroz de tomate corrido com feijões e pataniscas, do Cabanelinhas.
Contudo, por uma questão de organização começamos no Cardoso, perto do cruzamento do sinaleiro, aonde viriamos a acabar por não haver outro bar aberto àquela hora tardia, isto depois de termos degustado substâncias de um paladar requintado e texturas delicadas, untuosas, perfeitamente aromatizadas, mas sobretudo depois de termos provamos as fermentações mais bem conseguidas que a cidade e arredores nos pôde ter oferecido durante todo o fim do dia e no que logo se seguiu.

Tinhamos recebido uns e outros à nossa mesa, tinhamos falamos sem dizer grande coisa, rindo sempre, e mesmo quando nos pediram para deixarmos o estabelecimento, tinhamos rido também. Eu fazia o pequeno carro percorrer as ruas periféricas iluminadas espaçadamente e suavemente, em direcção a casa dos seus pais quando, procurando desesperadamente uma carteira de fósforos no fundo do porta-luvas, os óculos de soldador que aí se encontravam perdidos, vieram se instalar provisóriamente na minha cara.
Como, depois de acender o cigarro eu não me preocupei em tirá-los da frente dos olhos, a ele sobrou-lhe a opção urgente de me guiar com « vozes de comando », pelos caminhos que conheciamos bem, mas só ele era capaz de « ver » naquelas condições.
– Vais bem, corrige à esquerda, corrige à esquerda, em linha… mantém a velocidade… pisca à esquerda, reduz, vira à esquerda, vira, vira, desfaz, desfaz, desfaz… mantém, vais bem…
O seu riso revelando grande nervosismo, tornava-me mais forte e estúpido; E assim prosseguiamos, alegres. Desta maneira, passámos o Quartel, a Nossa Senhora da Conceição, o Pioledo, o Cabanelas, o Seminário, a Sé, o Liceu… eu sabendo sempre aonde me encontrava, sem contudo poder jurar.
Ouvi-o então dizer-me: Pára, não passa. Tirei os óculos com a mão que segurava o filtro do SG e distingui, longos segundos depois de ligar os farois mais iluminativos que o Austin possuía, um veículo voluminoso, muito atacado, desiquilibrado nos seus suportes, sujo, que se encontrava meio atravessado em frente ao Baca-Belha, abandonado.

Impunha-se-me retroceder. Mas não sem originalidade! E sempre com a falta de bom senso, só própria da idade de alguns jovens. Pus a mão por trás do assento do passageiro para melhor torcer o corpo e assim dirigir o olhar através da janela traseira, e recuei rápidamente passando o largo em frente ao portão do Liceu aonde podia ter completado a inversão de marcha (coisa que não estava nos meus planos fazer e que originou nova contracção espasmódica, ruidosa e duradoira dos musculos faciais do Amilcar). Passamos depois o pelourinho da Câmara a rir, a esquina da Gomes, o Governo Civil, os Bombeiros da Cruz Branca, contornamos o Mercado, viramos para a Rua de Baixo e terminamos o percurso sempre a rir e em marcha a trás, levemente, com a ingnição cortada contra um passeio da Praceta.

Continuamos ainda a consumir energias sem razão, as últimas direi eu, e a rir à gargalhada até que, sem gradação, o Amilcar olhou para o relógio e lembrou-se que tinha uma hora ou pouco mais, para estar na estação do Cabanelas com a mala que ainda não tinha preparado; A sua semana no Porto ia ser sobrecarregada e muito importante.
De imediato fiz meu o seu estado de espírito; o mesmo de uma pessoa que tem consciência dos seus actos. Arranquei o motor, subi a rampa e virei à esquerda (era a boa direcção).
Ainda sem poder tirar o melhor proveito da segunda velocidade do modesto mas tão precioso utensílio pertencente à minha mãe, um instante antes de passar a rua St. Condestável, algo, um pensamento ou uma intenção sem explicação; um efeito especial da séptima arte fez-me virar sem preparação o volante, à direita…

… E foi nesse momento que eu vi claramente uma árvore que atravessava a rua a correr… Pus-me a pensar se devia alargar a trajectória e passar-lhe por trás… Depois, não fosse ela arrepender-se e retroceder caminho, pensei que o melhor seria travar. Tentei então tirar a bota pesada de cima do acelerador, mas acabou por nem ser necessário visto que nos imobilizados sem que eu tenha compreendido porquê.
O Amilcar, surpreendido como eu por ver esse tronco, direito, em frente ao carro, tinha colado a testa ao para-brisas (não vos sei dizer em que ordem precisamente).
Depois, nenhum dos dois riu, apenas sorrimos; ele para me proteger da vergonha que eu sentia e eu, pensando poder minimisar as consequências sugeridas pelo sentimento de inquietação que veio nessa altura igualmente substituir toda a minha arrogância.

Saímos do carro e claro, a árvore mais ferida do que qualquer um de nós já se tinha reposicionado no seu canteiro daonde, até aposto, nunca voltou a ter a ousadia de saír.

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