Kulefuka e a primeira chuva do ano de 1955
A Inês
A nossa heroína, era talvez nessa altura uma menina de dezasseis anos com um viver próximo do de outras adolescentes: Jogava basket na equipa local com o seu irmão, costurava na Singer familiar a maior parte dos seus vestidos depois de cortar as partes, servindo-se como modelo das peças daqueles que já não podia usar. Montava com subtileza, tinha autorização e possuia a energia necessária para cavalgar através das anharas durante horas e manejava com precisão o rifle 8mm da família – se bem que a caça tivesse cedo vindo a tornar-se a especialidade da Ivette, a mais nova das suas quatro irmãs.
O que a Inês gostava mais era de ler. Descobria com avidez as situações complicadas das obras por vezes literárias que lhe chegavam às mãos regularmente, na sua maioria provenientes da biblioteca da família, esta devendo ser frequentemente reduzida por não caber em duas caixas de viagem. Começava depois do mata-bicho tal o adulto que acende o primeiro desesperado e continuava pela manhã sossegadamente instalada num ramo duma flamboiã, ou debaixo duma mulema ou em qualquer outro sítio durante as outras horas do dia.
Nas noites em que fazia muito calor, esperava sem animação aparente que todos dormissem, colada aos lençóis, impaciente para se ir sentar em segredo no banco de três pernas que iria pousar em frente à porta do armário frigorífico depois de a entreabrir de maneira a beneficiar da luz e da temperatura emanantes, graças ao funcionamento ruidoso do pequeno motor a petróleo.
A Inês preferia portanto as aventuras aos cálculos rigorosos, os romances sérios à política, e era muito eficaz em tudo o que fazia, o que se explica também pela raridade com que lhe pediam para confeccionar uma refeição. Tomar o perfume dos ingredientes, sentir a luz e cada tempo de terra e de água na sua cor e no seu peso, dar-lhes calor e o que eles peçam em boa medida, juntá-los a outros em bom tempo mas sem os misturar, e esperar que eles cedam à delicada intenção de ver unidos num sorriso aqueles que amava, constituia de facto uma impossíbilidade para ela.
A sua inteligência não era quadrangular nem circular… nem penso que fosse mesmo delimitada por uma linha fechada; dizê-la incongruente seria o mesmo que renunciar de ânimo fraco à vontade de aproximar a concisão do número transcendental que é necessária para a podermos imaginar.
Enfim… nenhuma inteligência se deve poder descrever através da comparação a uma figura geométrica nem sob o ponto de vista da exactidão nem sob o da lógica da sua construção, assim aceitarei considerar um caminho mais cómodo. Na verdade é meu desejo tentar no próximo parágrafo uma divagação introspectiva que se quer útil, partindo da seguinte noção que espero admitida pelo leitor: « Uma outra inteligência ».
Uma outra inteligência: Um conjunto – completo – de funções mentais que têm por objecto um outro conhecimento, aquele que não se pode verificar ou que ainda não aconteceu; Um conhecimento que reúne num repente todo o passado próprio, disponível em memória por vontade da alma e o transforma nesse mesmo instante em acção, por necessidade do ego tão sómente; Uma acção que vai responder antes da pergunta nem sempre formulada pelas inteligências que necessitam de raciocínio, quero dizer, que necessitam sempre de todas as fases ordenadas e explícitas do pensamento; Uma resposta que alcança frequentemente – única, universal, imutável, singela – a verdade e a defende – de uma forma por vezes julgada excessiva ou considerada patológica enquanto só dita e não verificada – e a abandona, instigada ainda pelo ego, desde o momento em que esta deixa de ser futura, portadora da sua energia vital; Uma verdade que muitas vezes não existe, por falta duma motivação capaz de dar sucessivamente proporção útil a todos os elementos dessa inteligência; Uma motivação que só se explica pela relação entre esses próprios elementos… Uma interioridade que por ser permanente pode embaraçar a sociedade ou sómente impedir o estrelar dum ovo.
Não cabe considerar neste texto, os casos aonde a natureza, Deus ou um outro ser dotado de uma qualquer inteligência, altera – antes da acção só possível tardia ou ulteriormente, ou durante a acção obrigatóriamente prolongada, em sigilo perverso ou por mero acaso o passado, digamos, o conhecimento, fazendo perder-se uma verdade, por vezes uma vida.