Kulefuka – Capítulo II

Kulefuka e a primeira chuva do ano de 1955

A família

A Inês morava na terceira forma aonde o branco não podia deixar de se fazer sentir do exterior, embora ali a predominância viesse duma cor vermelha de tonalidade escura.
O tijolo feito da terra suportava um telhado espesso; O zinco fora utilizado apenas na garagem e nas trazeiras sobre a imensa cozinha semi-circular.
Uma varanda profunda, igualmente coberta de capim, confortava um muro direito, talvez o menos distante do mar.
Ficavam protegidos por esse mesmo muro e dispostos em dois compartimentos distintos – tendo o maior deles e mais central, uma ligação com cada um dos outros e com a varanda – as caixas com os livros, o gramofone e o rádio a válvulas de última geração, o relógio de pendulo, três cabeças embalsamadas, as armas, o chicote suspenso, a máquina de costura, uma mesa com quatorze lugares e a cama de casal .

As outras duas fachadas mais ou menos planas, só abriam os restantes quartos virados a nascente através de janelas, amplas e baixas.
Todos os membros residentes dispunham portanto de acesso (normalizado) ao espaço que lhes fora atribuido, através deste local comunitário; As rotinas relativas à higiéne pessoal e às necessidades fisiológicas tinham lugar em pequenos anexos exteriores.

A oeste () fora construída uma garagem: Três meios-muros e um esqueleto em ferro sobre a qual reposavam aparafusadas quatro placas de metal ondulado.
O Ford F-100, um veículo de caixa aberta já dotado do 3.9 L bloco Y, posto à disposição das numerosas inevitabilidades administrativas e exigido em branco pelo seu depositário, aí pernoitava imaculado graças à dedicação do nativo, a quem também era permitido atravessar a cozinha para tomar as refeições à mesa, em família. Ao seu lado, preta reluzente, repousava a mais linda, a mais excitante alemã que até então algum homem tivesse podido idealizar… uma BMW R67/2; dois cilindros – 594cm3, 28 cv às 5600 rmp, capaz de, em condições ideais deslocar um condutor de certa condição, a 140 km/h.

Era o Toy, o irmão mais querido quem mantinha por paixão, as mecânicas em estado de excelência; mas a mais velha, muito hábil e a mais destemida, era a única que se interessava pelo seu guidão.
Por outro lado, o chefe do posto só ao seu pai tinha conferido autorização para conduzir o camião estatal, também usado em família.

O seu pai era um funcionário público de habilitações especiais que exercia uma autoridade alargada com competências administrativas, policiais, sanitárias, fiscais, estatísticas, geográficas, cadastrais, notariais e judiciais, sobre todos os habitantes de uma área extensa que ainda não dispunha das condições de desenvolvimento económico e social para se constituir como uma autarquia local.

A sua mãe era somente uma santa. Assumia todas as obrigações que a noção comporta mas gozava também de alguns privilégios próprios a qualquer santo; Ana tinha sempre um lugar reservado no habitáculo branco com seu marido, ao lado da sua mãe.

Quando a família saía de casa aperaltada, o acontecimento só podia chamar olhares, mesmo os não-curiosos. Atrás do volante, a palidez da farda de gala colonial perdia um nada do seu esplendor sobre a matiz. Era como se as duas carapinhas luzidias muito femininas – uma menos alisada e sobre uma pele mais escura não totalmente negra, a outra à janela muito consciente do seu papel – fizessem avançar, coloridas e sorridentes, o camião todo branco.

Espreitando por cima do tejadilho ou pelo vidro traseiro apareciam, naturalmente em pé e agitados como só é possível na adolescência, outros cinco penteados femininos, vestidos de ligeiros rodados em chita costurada por molde ou simplesmente adaptada às imagens da Burda dum ano anterior.

Ngumba a quem era exigido usar uma farda curta de soldado para viajar no camião, e Toy da mesma idade, preferiam sempre sentar-se, por falta doutra motivação ou por terem sido incumbidos de assegurar a estabilidade da enorme cesta da merenda, deixada sem amarras ao centro da caixa de carga.

Muito depois do camião passar, a brilhantina e a água-de-colónia comprada aos litros, abundantemente espalhadas nesses corpos felizes podia-se ainda sentir, e os mais curiosos davam agora atenção à sua própria respiração.

Depois, outros perfumes vinham retomar o seu lugar, lembrados pelo sol e pelas plantas ou pela chuva e pela terra, e só então a vida continuava, sem a necessidade de se ter dito ou de se vir a dizer sobre o assunto.

 

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